“Engole o choro” parece, à primeira vista, uma frase inofensiva, até educativa. Muitos adultos a repetem porque aprenderam assim, acreditando que estão preparando a criança para “o mundo real”. Mas, por trás dessas palavras, existe uma mensagem dura: sentir é errado, demonstrar é fraqueza, e você não será acolhido quando estiver vulnerável. Aos poucos, o filho aprende que, em casa, não há espaço seguro para mostrar dor, medo ou tristeza — justamente com as pessoas de quem ele mais precisa.
Quando um adulto manda a criança parar de chorar em vez de tentar entender o motivo, ele foca em silenciar o sintoma, não em cuidar da ferida. O choro é uma forma legítima de expressão, especialmente na infância, quando ainda faltam palavras para nomear emoções complexas. Ao dizer “engole o choro”, a mensagem real é: “o que você sente me incomoda, lide sozinho com isso”. Isso não fortalece; isola. A criança pode até obedecer e se calar, mas, por dentro, continua confusa, com raiva, com medo — e agora também se sentindo errada por sentir.
Com o tempo, esse padrão vai minando o vínculo. Crianças e adolescentes que escutam repetidamente que precisam “engolir o choro”, “parar com drama” ou “crescer” começam a esconder o que sentem. Deixam de contar problemas na escola, situações de humilhação, medos, até experiências de violência, com receio de serem desvalorizados ou ridicularizados. Em vez de procurar os pais, procuram a internet, os colegas, qualquer lugar onde sintam menos julgamento. O resultado é um afastamento silencioso: por fora, parece que “está tudo bem”; por dentro, há um filho cada vez mais sozinho.
Trocar o “engole o choro” por escuta não significa permitir tudo ou não colocar limites. Significa, primeiro, reconhecer o sentimento: “vejo que você está muito triste/irritado/assustado”, “sei que isso doeu em você”. Depois, ajudar a organizar o que aconteceu: “o que te fez chorar?”, “o que você estava pensando na hora?”. Só então entram os combinados e as orientações: “não é certo bater, mesmo bravo”, “a gente vai precisar encontrar outra forma de resolver isso”. Assim, você ensina autocontrole sem exigir autoanulação.
Quando um filho percebe que pode chorar, desabafar e mostrar sua fragilidade sem ser atacado, ele se aproxima. Passa a ver o adulto como alguém com quem pode dividir pesos, não apenas temer broncas. E isso é especialmente importante na adolescência, fase em que conflitos, dúvidas e dores se intensificam. Substituir o “engole o choro” por “me conta o que aconteceu?”, “estou aqui com você”, “vamos respirar juntos e pensar no que fazer” pode parecer um detalhe, mas muda tudo: transforma a dor em ponte, não em muro entre vocês.

