Do “É Frescura” ao “Estou Contigo”: A Revolução do Acolhimento em Casa

Durante muito tempo, frases como “isso é frescura”, “drama”, “para com isso” foram tratadas como normais dentro de casa. Elas parecem pequenas, mas carregam um recado pesado: o que você sente não é importante, é exagero, é um problema a ser calado. Crianças e adolescentes que crescem ouvindo isso aprendem a duvidar das próprias emoções, a sentir vergonha do que vivem por dentro e, principalmente, a esconder suas dores. O resultado é um lar em que todos convivem, mas poucos se mostram de verdade.

A revolução do acolhimento começa quando alguém decide quebrar esse ciclo e trocar o “é frescura” por “me conta, quero entender”. Acolher não é concordar com tudo nem abandonar limites, mas reconhecer que, para aquela pessoa, aquilo dói, preocupa ou assusta. Quando um filho recebe como resposta um “estou contigo”, “isso parece ter sido difícil”, “eu vejo que você está sofrendo”, ele sente que não está sozinho. Essa sensação de não abandono é uma das maiores proteções emocionais que uma família pode oferecer.

Essa mudança de postura exige que os adultos também revisitem a própria história. Muitos pais foram ensinados a engolir o choro, a não reclamar, a aguentar “na força” e, por isso, têm dificuldade em lidar com a vulnerabilidade dos filhos. É preciso coragem para admitir: “eu não aprendi a falar sobre sentimentos, mas quero fazer diferente com você”. Esse reconhecimento quebra a barreira do “eu sei tudo” e abre espaço para uma relação mais verdadeira, onde ambos podem crescer juntos.

Na prática, acolher significa ouvir até o fim antes de julgar, fazer perguntas em vez de rótulos, validar o que o outro sente (“faz sentido você estar triste com isso”) e só depois, se houver abertura, pensar em soluções. Também significa controlar o impulso de diminuir o que é importante para o filho só porque, para o adulto, parece pequeno. Uma briga com amigo, uma nota baixa ou um comentário nas redes podem não abalar você, mas podem ser gigantes para ele. Respeitar essa diferença é parte do acolhimento.

Do “é frescura” ao “estou contigo” existe uma ponte feita de pequenas escolhas diárias: escutar, respirar antes de reagir, pedir desculpas quando errar, mostrar que sentimentos cabem dentro de casa. Quando esse ambiente de acolhimento se fortalece, algo poderoso acontece: filhos que antes se calavam começam a procurar os pais para contar o que vivem, inclusive situações graves de violência, medo e sofrimento. A casa deixa de ser apenas um lugar físico e se torna um refúgio emocional — um espaço onde ninguém precisa fingir ser forte o tempo todo para merecer amor.

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