Conviver com adolescentes pode dar a sensação de estar sempre a um passo de um suspiro impaciente ou de um revirar de olhos. Ainda assim, é justamente nessa fase que eles mais precisam de adultos que saibam escutar de verdade. Escuta ativa não é só “deixar falar”: é estar presente, interessado e disponível, sem transformar cada conversa em interrogatório ou sermão. Quando bem praticada, ela diminui a defensividade e aumenta as chances de o adolescente, aos poucos, baixar a guarda.
O primeiro passo é cuidar do clima. Evite iniciar conversas sérias no meio de uma briga ou logo após uma bronca. Prefira momentos mais neutros: uma carona, uma refeição, uma série vista juntos, uma caminhada. Guarde o celular, olhe nos olhos na medida em que ele tolera, mas sem forçar contato visual o tempo todo. Comentários leves sobre o dia, músicas, jogos ou assuntos que ele gosta podem funcionar como porta de entrada para temas mais profundos.
Na hora em que o adolescente começa a falar, a regra de ouro é: ouça mais, responda menos. Em vez de interromper com “eu já sei”, “na minha época…” ou “isso é besteira”, faça perguntas que o ajudem a se ouvir: “o que foi mais chato nessa situação?”, “como você se sentiu quando isso aconteceu?”, “o que você pensou em fazer?”. Evite aproveitar qualquer brecha para emendar críticas à escola, amigos, roupa ou escolhas. Quanto mais ele sentir que está sendo avaliado, maior a chance do famoso revirar de olhos aparecer.
Escuta ativa também significa checar se ele quer conselho ou só acolhimento. Uma frase simples como “você quer que eu te ajude a pensar em uma solução ou só queria desabafar?” muda completamente a dinâmica. Se a resposta for “só desabafar”, segure o impulso de já dar a lição de moral. Valide o que ele sente: “entendo que isso tenha te deixado muito bravo/triste/confuso”, “faz sentido você estar assim”. Quando ele perceber que não será imediatamente corrigido ou ridicularizado, tenderá a se abrir mais nas próximas vezes.
Por fim, escuta ativa é um hábito, não um evento. Vai haver dia em que o adolescente estará fechado, monossilábico, cansado — e tudo bem: respeitar esse limite também faz parte da escuta. O importante é que ele saiba que você está disponível: “ok, não quer falar agora, mas se quiser depois, eu estou aqui”. Com consistência, menos julgamentos e mais curiosidade genuína, os revirar de olhos vão diminuindo e dando lugar a algo raro, mas precioso: momentos em que ele escolhe, por vontade própria, sentar e contar o que está vivendo, porque confia que será ouvido de verdade.

