“Por que você não contou antes?”, “por que estava naquele lugar?”, “por que aceitou aquela conversa?”. Perguntas como essas, muitas vezes feitas sem intenção de machucar, empurram para o adolescente a responsabilidade por algo que nunca foi culpa dele: o abuso. A frase “a culpa nunca é da vítima” precisa deixar de ser apenas um slogan e virar compreensão real. Abuso é sempre uma escolha do agressor, que se aproveita de poder, manipulação, engano ou força para violar limites — nunca uma consequência do jeito de se vestir, falar, sentir curiosidade ou confiar em alguém.
Um dos mitos mais perigosos é o de que “se não resistiu, é porque quis” ou “se continuou conversando, é porque gostou”. Em situações de abuso, o corpo e a mente muitas vezes entram em estado de choque: congelam, obedecem por medo, fazem de tudo para sobreviver. Isso vale tanto para abusos presenciais quanto virtuais. Continuar respondendo mensagens, enviar fotos por pressão, encontrar alguém por insistência não transforma o adolescente em culpado; mostra apenas o quanto foi manipulado ou ameaçado. Responsabilizar a vítima por “não ter fugido” é ignorar o poder do medo e da confusão.
Outro mito comum é o de que “se estava em um relacionamento, não é abuso” ou “se era amigo, não é tão grave”. Abuso pode acontecer com namorado(a), amigo, colega, familiar, professor, líder religioso — justamente porque o agressor costuma usar a relação de confiança para se aproximar. Ter gostado da pessoa, ter sentido carinho antes ou até ter consentido em algumas situações não autoriza ninguém a ultrapassar limites, forçar, chantagear ou expor o adolescente. Quando não há liberdade real para dizer “não” sem medo, não existe consentimento verdadeiro.
Também é preciso desconstruir a ideia de que denunciar “vai destruir a família”, “vai acabar com a vida do agressor” ou “vai dar muito trabalho para todo mundo”. Essas frases, muitas vezes repetidas por quem quer proteger a própria imagem ou evitar conflitos, colocam nas costas da vítima o peso de manter a aparência de normalidade. Na verdade, quem destrói relações e causa sofrimento é o agressor — a denúncia apenas revela o que já estava acontecendo escondido. Falar é um ato de coragem e proteção, não de traição.
Quando o adolescente entende, de verdade, que não será culpado, ridicularizado ou desacreditado, aumentam muito as chances de ele pedir ajuda. Por isso, é fundamental que pais, responsáveis, educadores e profissionais digam e mostrem, com atitudes: “se algo assim acontecer com você, eu vou acreditar em você, a culpa nunca será sua e vamos buscar ajuda juntos”. Repetir essa mensagem, explicar o que é abuso, falar sobre manipulação e medo e acolher sem julgamento transforma o ambiente em um lugar mais seguro para denunciar. E é justamente essa segurança que pode interromper ciclos de violência e salvar vidas.

