“Engole o Choro”: Como Essa Frase Afasta Seu Filho de Você

“Engole o choro” parece, à primeira vista, uma frase inofensiva, até educativa. Muitos adultos a repetem porque aprenderam assim, acreditando que estão preparando a criança para “o mundo real”. Mas, por trás dessas palavras, existe uma mensagem dura: sentir é errado, demonstrar é fraqueza, e você não será acolhido quando estiver vulnerável. Aos poucos, o filho aprende que, em casa, não há espaço seguro para mostrar dor, medo ou tristeza — justamente com as pessoas de quem ele mais precisa.

Quando um adulto manda a criança parar de chorar em vez de tentar entender o motivo, ele foca em silenciar o sintoma, não em cuidar da ferida. O choro é uma forma legítima de expressão, especialmente na infância, quando ainda faltam palavras para nomear emoções complexas. Ao dizer “engole o choro”, a mensagem real é: “o que você sente me incomoda, lide sozinho com isso”. Isso não fortalece; isola. A criança pode até obedecer e se calar, mas, por dentro, continua confusa, com raiva, com medo — e agora também se sentindo errada por sentir.

Com o tempo, esse padrão vai minando o vínculo. Crianças e adolescentes que escutam repetidamente que precisam “engolir o choro”, “parar com drama” ou “crescer” começam a esconder o que sentem. Deixam de contar problemas na escola, situações de humilhação, medos, até experiências de violência, com receio de serem desvalorizados ou ridicularizados. Em vez de procurar os pais, procuram a internet, os colegas, qualquer lugar onde sintam menos julgamento. O resultado é um afastamento silencioso: por fora, parece que “está tudo bem”; por dentro, há um filho cada vez mais sozinho.

Trocar o “engole o choro” por escuta não significa permitir tudo ou não colocar limites. Significa, primeiro, reconhecer o sentimento: “vejo que você está muito triste/irritado/assustado”, “sei que isso doeu em você”. Depois, ajudar a organizar o que aconteceu: “o que te fez chorar?”, “o que você estava pensando na hora?”. Só então entram os combinados e as orientações: “não é certo bater, mesmo bravo”, “a gente vai precisar encontrar outra forma de resolver isso”. Assim, você ensina autocontrole sem exigir autoanulação.

Quando um filho percebe que pode chorar, desabafar e mostrar sua fragilidade sem ser atacado, ele se aproxima. Passa a ver o adulto como alguém com quem pode dividir pesos, não apenas temer broncas. E isso é especialmente importante na adolescência, fase em que conflitos, dúvidas e dores se intensificam. Substituir o “engole o choro” por “me conta o que aconteceu?”, “estou aqui com você”, “vamos respirar juntos e pensar no que fazer” pode parecer um detalhe, mas muda tudo: transforma a dor em ponte, não em muro entre vocês.

Dicas de educação Digital para Pais: Os pais precisam estudar o básico das redes para poder identificar possíveis violências.

No mundo atual, entregar um celular ou computador a uma criança sem orientação é como deixá-la sozinha em uma cidade desconhecida. Redes sociais, jogos online e aplicativos de mensagens fazem parte da rotina, mas também podem expô-la a riscos como bullying, aliciamento, chantagem e exposição indevida de imagens. Por isso, educação digital não é “extra”: faz parte do cuidado básico. E isso começa pelos pais, que precisam aprender pelo menos o básico das ferramentas que os filhos usam.

Conhecer as principais redes e jogos não significa virar especialista em tecnologia, mas entender o suficiente para reconhecer sinais de perigo. Isso inclui saber como funcionam mensagens privadas, grupos, “amigos de amigos”, envio de fotos e vídeos, chamadas de voz e vídeo, denúncias e bloqueios. Também é importante conhecer termos comuns como grooming, sexting, sextortion, cyberbullying e doxing. Quando você sabe o que essas coisas significam, fica mais fácil identificar comportamentos suspeitos e perceber quando algo está errado.

Uma boa prática é pedir que seu filho mostre como ele usa as redes e os jogos: quais aplicativos mais gosta, com quem conversa, que tipo de conteúdo consome e produz. Em vez de apenas proibir, participe: crie contas (quando fizer sentido), explore configurações de privacidade, entenda como adicionar e remover contatos, como denunciar e bloquear perfis. Assim, quando precisar orientar ou intervir, você fala com conhecimento de causa e consegue, inclusive, ensinar a criança ou adolescente a se proteger sozinho.

Estudar o básico também ajuda a diferenciar sinais de uso saudável e de possível violência. Mudanças bruscas de humor após usar o celular, medo ou vergonha de mostrar conversas, uso excessivo noturno, aumento de segredos em relação às telas, exclusão rápida de mensagens ao se aproximar um adulto podem indicar que algo não vai bem. Se você conhece como a plataforma funciona, pode fazer perguntas mais específicas (“quem pode ver o que você posta?”, “você conhece pessoalmente essas pessoas?”, “alguém já te pediu fotos que te deixaram desconfortável?”), abrindo espaço para que seu filho fale.

Por fim, lembre-se: estudar educação digital não é desconfiar automaticamente dos filhos, mas assumir a responsabilidade de protegê-los também no ambiente online. Procure conteúdos confiáveis, cursos rápidos, materiais de ONGs e órgãos de proteção à infância e adolescência. Compartilhe o que aprender com outros responsáveis, escolas e familiares. Quando os adultos se informam e mantêm um diálogo aberto, as chances de perceber e interromper violências digitais aumentam muito. O recado que seu filho precisa receber é: “eu não entendo tudo de internet, mas estou disposto a aprender, caminhar ao seu lado e te proteger também nesse mundo”.

Comunicação Não-Violenta em Família: Trocando gritos e castigos por diálogos que resolvem problemas

Dentro de casa, é comum que conflitos sejam respondidos com gritos, ameaças e castigos. À primeira vista, pode até parecer que “funciona”: a criança obedece, o adolescente recua, o ambiente silencia. Mas, por trás desse silêncio, costumam ficar medo, vergonha, ressentimento e distância emocional. A Comunicação Não-Violenta (CNV) propõe outro caminho: em vez de reagir atacando ou humilhando, aprender a expressar o que sentimos e precisamos de forma honesta e respeitosa, criando soluções que realmente fortalecem o vínculo.

A CNV se baseia em quatro pilares: observar os fatos sem julgar, reconhecer e nomear sentimentos, identificar necessidades por trás desses sentimentos e fazer pedidos claros, em vez de ameaças ou ordens vagas. Em família, isso significa trocar frases como “você é desobediente” por algo como “quando peço para guardar o celular e isso não acontece, eu fico frustrado porque preciso de colaboração; podemos combinar um horário para desligar?”. A estrutura é simples, mas poderosa: tira o foco do rótulo (“você é o problema”) e coloca no comportamento e no impacto que ele tem.

Ao invés de castigos automáticos, a CNV favorece conversas sobre consequências e responsabilidades. Em vez de “vai ficar uma semana sem sair porque chegou atrasado”, é possível dizer: “quando você atrasa e não avisa, eu fico preocupado e inseguro; preciso saber que você está bem. Como podemos garantir que isso não se repita?”. Assim, o adolescente é convidado a participar da construção do acordo, não apenas a obedecer por medo. Isso não significa ausência de limites, e sim limites explicados, coerentes e combinados, que tendem a ser mais respeitados.

Um ponto central da CNV em família é a escuta. Não adianta apenas os adultos aprenderem a falar de outro jeito se não estiverem dispostos a ouvir, de verdade, o que crianças e adolescentes sentem e pensam. Quando eles percebem que podem expressar raiva, tristeza, frustração ou discordância sem serem ridicularizados ou punidos por sentir, a casa se torna um espaço mais seguro. Nesse ambiente, problemas são discutidos antes de virarem explosões; pedidos de ajuda aparecem antes de comportamentos extremos.

Implementar a Comunicação Não-Violenta não é virar “perfeito” do dia para a noite, mas assumir um compromisso de mudar a forma de se relacionar. Haverá recaídas, momentos de grito, arrependimento — e até esses momentos podem ser oportunidades de praticar a CNV, pedindo desculpas e recomeçando: “eu passei do limite, estava com medo e exausto; da próxima vez quero tentar falar de outro jeito”. Aos poucos, gritos e castigos deixam de ser a ferramenta principal, abrindo espaço para diálogos que não só resolvem problemas imediatos, mas também constroem respeito, confiança e conexão duradouros entre pais e filhos.

A Culpa Nunca é da Vítima: Desconstruindo mitos sobre abuso para que o adolescente se sinta seguro para denunciar.

“Por que você não contou antes?”, “por que estava naquele lugar?”, “por que aceitou aquela conversa?”. Perguntas como essas, muitas vezes feitas sem intenção de machucar, empurram para o adolescente a responsabilidade por algo que nunca foi culpa dele: o abuso. A frase “a culpa nunca é da vítima” precisa deixar de ser apenas um slogan e virar compreensão real. Abuso é sempre uma escolha do agressor, que se aproveita de poder, manipulação, engano ou força para violar limites — nunca uma consequência do jeito de se vestir, falar, sentir curiosidade ou confiar em alguém.

Um dos mitos mais perigosos é o de que “se não resistiu, é porque quis” ou “se continuou conversando, é porque gostou”. Em situações de abuso, o corpo e a mente muitas vezes entram em estado de choque: congelam, obedecem por medo, fazem de tudo para sobreviver. Isso vale tanto para abusos presenciais quanto virtuais. Continuar respondendo mensagens, enviar fotos por pressão, encontrar alguém por insistência não transforma o adolescente em culpado; mostra apenas o quanto foi manipulado ou ameaçado. Responsabilizar a vítima por “não ter fugido” é ignorar o poder do medo e da confusão.

Outro mito comum é o de que “se estava em um relacionamento, não é abuso” ou “se era amigo, não é tão grave”. Abuso pode acontecer com namorado(a), amigo, colega, familiar, professor, líder religioso — justamente porque o agressor costuma usar a relação de confiança para se aproximar. Ter gostado da pessoa, ter sentido carinho antes ou até ter consentido em algumas situações não autoriza ninguém a ultrapassar limites, forçar, chantagear ou expor o adolescente. Quando não há liberdade real para dizer “não” sem medo, não existe consentimento verdadeiro.

Também é preciso desconstruir a ideia de que denunciar “vai destruir a família”, “vai acabar com a vida do agressor” ou “vai dar muito trabalho para todo mundo”. Essas frases, muitas vezes repetidas por quem quer proteger a própria imagem ou evitar conflitos, colocam nas costas da vítima o peso de manter a aparência de normalidade. Na verdade, quem destrói relações e causa sofrimento é o agressor — a denúncia apenas revela o que já estava acontecendo escondido. Falar é um ato de coragem e proteção, não de traição.

Quando o adolescente entende, de verdade, que não será culpado, ridicularizado ou desacreditado, aumentam muito as chances de ele pedir ajuda. Por isso, é fundamental que pais, responsáveis, educadores e profissionais digam e mostrem, com atitudes: “se algo assim acontecer com você, eu vou acreditar em você, a culpa nunca será sua e vamos buscar ajuda juntos”. Repetir essa mensagem, explicar o que é abuso, falar sobre manipulação e medo e acolher sem julgamento transforma o ambiente em um lugar mais seguro para denunciar. E é justamente essa segurança que pode interromper ciclos de violência e salvar vidas.

Seu filho não fala mais com você? Como recuperar o diálogo antes que ele se afaste

Quando um filho começa a se calar, responder só com “tá”, “nada” ou se trancar no quarto, muitos pais sentem que perderam o vínculo. A sensação é de estar morando com um estranho dentro de casa. Mas o afastamento raramente acontece de um dia para o outro: ele costuma ser o resultado de pequenos rompimentos acumulados — broncas duras na hora errada, falta de tempo, julgamentos, comparações. A boa notícia é que, assim como a confiança se desgasta aos poucos, ela também pode ser reconstruída passo a passo.

O primeiro movimento para recuperar o diálogo é olhar para a própria postura. Em vez de se perguntar apenas “por que ele é assim?”, vale perguntar “como eu tenho reagido quando ele tenta falar?”. Interrupções, sermões, ironias ou minimizar o que ele sente (“isso é drama”, “problema de verdade você não conhece”) ensinam que abrir o coração é arriscado. Começar a mudar significa ouvir mais e falar menos, trocar a pressa por presença, segurar o impulso de dar lição de moral em cada frase.

Criar espaços de conversa sem pressão ajuda muito. Nem todo diálogo começa em “vamos conversar sobre a nossa relação”. Às vezes, ele nasce em coisas simples: um lanche juntos, uma carona, um filme, um jogo, uma tarefa do dia a dia. Momentos em que você está disponível, sem celular na mão, sem interrogatório, apenas junto. Comentários sobre temas neutros podem abrir caminho para que, aos poucos, ele se arrisque a falar do que realmente sente. O importante é mostrar, na prática, que você continua ali, acessível.

Quando seu filho der qualquer sinal de abertura, mesmo pequeno, trate isso como algo valioso. Se ele fizer um comentário sobre um problema na escola, um amigo, um medo ou uma dúvida, resista à vontade de já corrigir, criticar ou dar a solução pronta. Em vez disso, pergunte mais: “quer me contar melhor?”, “como você se sentiu?”, “o que você acha que daria para fazer?”. Validar o sentimento (“entendo que isso te deixou mal”) não significa concordar com tudo, mas mostra respeito pela experiência dele — e isso alimenta a confiança.

Por fim, seja honesto sobre seus próprios erros. Pedir desculpas por momentos em que gritou, foi injusto ou não ouviu como deveria é um gesto poderoso. Não apaga o passado, mas mostra que você também está disposto a mudar. Dizer “eu quero melhorar, quero ser alguém com quem você possa contar” abre uma porta que talvez estivesse fechada há tempo. Reconstruir o diálogo não é algo rápido, mas, com constância, menos julgamentos e mais escuta, muitos filhos que se calaram voltam, pouco a pouco, a acreditar que vale a pena falar.

Traduzindo o Perigo Virtual: O Que Significam Palavras como Grooming, Doxing, Sextortion e Sexting?

O mundo virtual criou novas formas de relacionamento — e também novas formas de violência. Por isso, entender termos como groomingdoxingsextortion e sexting é fundamental para proteger crianças, adolescentes e até adultos. Esse “dicionário do perigo virtual” não serve para gerar pânico, mas para dar nome ao que acontece escondido nas telas. Quando sabemos identificar um risco, temos muito mais chances de agir rápido e buscar ajuda antes que o dano seja maior.

Grooming é o processo em que um aliciador se aproxima de uma criança ou adolescente, quase sempre pela internet, para ganhar confiança e, aos poucos, levá-lo a situações de abuso, principalmente sexual. Começa com conversas aparentemente inocentes, elogios, atenção excessiva e criação de “segredos” entre os dois. O agressor se aproveita de vulnerabilidades emocionais e vai quebrando as defesas da vítima até conseguir o que quer: fotos íntimas, encontros presenciais ou outras formas de exploração. Não é culpa da criança: é manipulação planejada por um adulto.

Doxing é a exposição de dados pessoais de alguém sem consentimento, geralmente com intenção de intimidar, ameaçar ou humilhar. Pode incluir nome completo, endereço, telefone, local de trabalho, escola, perfis de redes sociais e até dados de familiares. Quando essas informações vão parar em grupos ou páginas, a pessoa passa a sofrer ataques, perseguições e medo real pela própria segurança. Em casos envolvendo crianças e adolescentes, o risco se torna ainda maior, porque facilita a ação de agressores e perseguidores.

Sexting é o envio consensual de mensagens, fotos ou vídeos de conteúdo íntimo/sexual, geralmente entre pessoas que estão se relacionando. O grande perigo é que esse material pode ser salvo, compartilhado ou usado fora do contexto original, principalmente quando envolve menores de idade. A partir daí, pode surgir a sextortion: chantagem feita com base em conteúdos íntimos. O agressor ameaça divulgar fotos ou vídeos se a vítima não fizer algo — mandar mais imagens, pagar dinheiro, manter contato. A sensação de vergonha e medo prende a pessoa em um ciclo de silêncio que muitas vezes só se rompe com ajuda externa.

Conhecer esses termos é o primeiro passo para conversar com crianças e adolescentes de forma clara e preventiva. Explicar, com linguagem adequada à idade, que ninguém tem o direito de pedir fotos íntimas, de expor dados pessoais, de ameaçar divulgar algo ou de manter segredos desconfortáveis é parte da proteção. E reforçar sempre: se algo assim acontecer, a culpa nunca é da vítima — e ela pode (e deve) contar a um adulto de confiança, que vai acreditar, acolher e buscar ajuda. Informação não é só conteúdo técnico: é uma forma concreta de cuidado e segurança no mundo digital.

Prevenção Começa em Casa: O Papel da Informação e da Escuta

Informação salva vidas, especialmente quando falamos de prevenir violências contra crianças e adolescentes. Quanto mais silêncio e tabu existe em uma casa, mais espaço sobra para agressões acontecerem escondidas, sem que ninguém perceba. O diálogo aberto, respeitoso e contínuo funciona como um escudo: ele ajuda a criança a entender o que é certo e errado, a reconhecer situações de risco e, principalmente, a saber que pode pedir ajuda. Falar não é colocar medo, é dar ferramentas.

Quando uma criança aprende, desde cedo, o nome correto das partes do corpo, o que são toques permitidos e toques proibidos, o que são segredos perigosos e o direito de dizer “não”, ela fica menos vulnerável à manipulação. A desinformação é aliada do agressor: é muito mais fácil confundir e explorar alguém que nunca ouviu falar sobre consentimento, abuso, bullying ou violência online. Já a informação, transmitida com carinho e em linguagem adequada à idade, fortalece a capacidade dela de identificar algo errado e se proteger.

O diálogo também cria uma ponte entre a criança e o adulto de confiança. Quando pais e responsáveis escutam sem ridicularizar, sem minimizar (“isso é besteira”) e sem explodir em raiva, a mensagem que passam é: “você pode falar comigo sobre qualquer coisa”. Isso vale tanto para pequenas situações do dia a dia quanto para algo mais sério, como um toque inadequado, uma ameaça, uma mensagem estranha no celular. Crianças que se sentem acolhidas tendem a contar mais cedo, o que é decisivo para interromper violências.

Além disso, conversar sobre sentimentos — medo, tristeza, vergonha, raiva — ajuda a criança a colocar em palavras o que vive, em vez de só manifestar por meio de comportamentos “difíceis” (crises, isolamento, agressividade). Muitas vezes, mudanças de humor e atitudes são os primeiros sinais de que algo não vai bem. Se o diálogo já faz parte da rotina, fica mais fácil notar essas mudanças e perguntar com cuidado: “percebi que você está diferente, quer me contar o que está acontecendo?”. Assim, a informação não é só conteúdo, é também percepção do outro.

Por fim, é importante lembrar que diálogo não é uma conversa única e pronta, mas algo que se constrói todos os dias: na hora da refeição, antes de dormir, no caminho da escola, em um jogo, num filme. Pais e responsáveis não precisam ter todas as respostas, precisam principalmente estar disponíveis, admitir quando não sabem e buscar informações juntos. Ao assumir que informação salva e que falar é um ato de cuidado, você transforma sua casa em um espaço mais seguro — onde violências encontram mais barreiras e onde, se algo acontecer, ninguém precisa enfrentar o medo sozinho.

O que é “Grooming”? Entenda como aliciadores preparam a criança antes do abuso.

“Grooming” é o processo em que um aliciador se aproxima de uma criança ou adolescente, geralmente pela internet, para ganhar sua confiança e quebrar suas defesas até chegar ao abuso, seja ele sexual, emocional ou envolvendo exploração de imagens íntimas. Diferente da ideia de um ataque repentino, o grooming é planejado, gradual e mascarado de amizade, carinho ou “relacionamento especial”. O agressor, muitas vezes, se apresenta como alguém da mesma idade ou um pouco mais velho, compreensivo e “diferente de todos os outros adultos”.

Esse processo costuma começar com conversas aparentemente inocentes: interesses em comum, jogos, músicas, séries, problemas na escola ou em casa. O aliciador observa vulnerabilidades — solidão, conflitos familiares, baixa autoestima — e passa a ocupar o lugar de quem entende, apoia e defende. Aos poucos, aumenta a frequência do contato, cria segredos (“não conta isso para seus pais, eles não vão entender”) e faz a criança sentir que aquela relação é única e especial. É assim que ele vai isolando a vítima emocionalmente dos adultos de confiança.

Depois de conquistar a confiança, o agressor começa a introduzir temas de sexualidade e intimidade, geralmente de forma sutil: piadas, comentários sobre corpo, perguntas sobre experiências afetivas. Aos poucos, pode pedir fotos “normais”, depois fotos com menos roupa, até chegar a imagens íntimas ou situações de abuso direto. Muitas vezes, usa chantagem emocional (“se você não mandar, vou ficar chateado”, “vou sumir”) ou ameaça (“vou mostrar essas fotos para todo mundo”, “vou contar isso para seus pais”) para manter o controle. A criança, confusa e com medo, se sente presa.

Entender o grooming é essencial para perceber que a culpa nunca é da criança ou do adolescente. Eles são manipulados por alguém que usa técnicas específicas para burlar a confiança e explorar fragilidades, se aproveitando da imaturidade emocional e da falta de experiência. Por isso, frases como “por que você não contou antes?”, “como você deixou isso acontecer?” só aumentam a vergonha e o silêncio. O foco precisa estar em interromper o abuso, proteger a vítima e responsabilizar o agressor, não em julgar quem foi enganado.

A prevenção passa, principalmente, por informação e diálogo aberto. Conversar com crianças e adolescentes sobre limites, segredos perigosos, consentimento, riscos da exposição online e direito de dizer “não” é uma das formas mais poderosas de proteção. Explicar, com linguagem adequada à idade, que adultos (ou pessoas mais velhas) não têm o direito de pedir fotos íntimas, conversar sobre temas sexuais em segredo ou ameaçar por causa de algo enviado é fundamental. Acima de tudo, é preciso reforçar sempre: “se algo assim acontecer, você pode me contar, eu vou acreditar em você e a culpa nunca será sua”. Essa mensagem é a chave para quebrar o isolamento que o grooming tenta construir.

Devo olhar o celular do meu filho? O limite perigoso entre privacidade e segurança.

A dúvida sobre olhar ou não o celular do filho é, na verdade, um reflexo de uma tensão real: como garantir segurança sem destruir a confiança e a privacidade? De um lado, o mundo digital expõe crianças e adolescentes a riscos concretos — aliciadores, pornografia, desafios perigosos, bullying, golpes. De outro, fuçar escondido nas conversas pode gerar um sentimento profundo de invasão e traição, dificultando justamente aquilo que você mais precisa: que ele conte quando algo estiver errado.

O primeiro ponto é entender que segurança não pode se apoiar apenas em vigilância secreta. Olhar o celular às escondidas pode até trazer uma sensação momentânea de controle, mas passa a mensagem de que ele não é digno de confiança e que, em casa, não existe espaço para preservar nada da intimidade. Em vez de construir diálogo, isso incentiva senhas escondidas, contas paralelas, aplicativos disfarçados e uma distância emocional que enfraquece a proteção. Segurança real nasce primeiro de uma relação em que seu filho sente que pode falar.

Isso não significa, porém, entregar um celular e “lavar as mãos”. Com crianças menores, é legítimo — e necessário — estabelecer regras claras: horários, tipos de conteúdo, redes permitidas, combinação prévia de que o uso será acompanhado, aparelhos em locais comuns da casa. A diferença crucial está na transparência: em vez de “espionar”, deixe claro que, por ser responsável pela segurança dele, você poderá, em alguns momentos, revisar conversas, contatos e histórico — e explique o porquê, sempre relacionando a riscos reais, não a desconfiança generalizada.

Na adolescência, o equilíbrio fica mais delicado. Aqui, o ideal é migrar gradualmente do controle direto para a supervisão baseada em diálogo e combinados. Em vez de exigir acesso irrestrito o tempo todo, converse sobre riscos, peça que ele te mostre aplicativos que usa, crie o hábito de perguntar como estão as interações online e deixe explícito: “se eu perceber sinais de perigo, posso pedir para ver seu celular, e não é porque não confio em você, e sim porque minha função é te proteger”. Mais importante do que “ter a senha” é ele sentir que pode te procurar antes que um problema cresça.

O limite perigoso surge quando a privacidade é completamente anulada em nome da segurança, ou quando, ao contrário, o medo de “invadir” faz os adultos se afastarem de qualquer acompanhamento. Entre esses extremos, existe um caminho de presença responsável: explicar regras, ser coerente, ouvir mais do que acusar, ajustar o nível de supervisão à idade e ao grau de maturidade, e estar atento a sinais de alerta (mudanças bruscas de humor, segredos excessivos, isolamento, medo ou vergonha em relação ao celular). No fim, a maior proteção não é o olho em cima da tela, mas o vínculo em que seu filho acredita que você é a primeira pessoa a quem pode recorrer se algo ruim acontecer — online ou fora dela.

Como ajudar seu filho a voltar à rotina após o trauma de um abuso?

Ajudar seu filho a voltar à rotina após o trauma de um abuso não significa “fingir que nada aconteceu” e retomar a vida como antes. O que aconteceu mudou a história dele, e a rotina precisa ser reconstruída levando esse fato em consideração. O primeiro passo é garantir que ele esteja, de fato, em segurança: longe do agressor, protegido por adultos confiáveis e acompanhado, sempre que possível, por profissionais especializados. A sensação de segurança é a base para qualquer tentativa de retomar escola, lazer, sono, alimentação e convivência social.

A rotina deve ser retomada aos poucos, respeitando o ritmo da criança ou adolescente. Alguns dias ele pode querer ir à escola, em outros pode recusar com medo ou vergonha; oscilações são esperadas. Forçar uma volta “100% normal” pode aumentar o sofrimento. Em vez disso, combine pequenos passos: horários de sono e refeições mais regulares, retomada gradual das atividades que ele gostava antes, momentos de descanso e de brincadeira. O objetivo não é apressar a cura, mas oferecer previsibilidade, o que traz sensação de controle em meio ao caos interno.

Ouvir e acolher as emoções é tão importante quanto organizar horários. Tristeza, raiva, confusão, culpa, medo e até momentos de aparente “indiferença” fazem parte do processo. Frases como “o que você sente faz sentido”, “você pode falar sobre isso quando quiser, e também pode não querer falar agora”, “nada disso é culpa sua” ajudam a aliviar a pressão interna. Evite cobrar que ele “supere logo”, “esqueça isso” ou “volte a ser como era antes”; essas cobranças podem levá-lo a esconder o que sente só para não decepcionar você.

O apoio profissional faz muita diferença nessa fase. Psicólogos especializados em infância, adolescência e violência sexual podem ajudar a organizar memórias, emoções e medos, além de orientar a família sobre como agir em casa, na escola e em outros ambientes. Sempre que possível, mantenha uma comunicação aberta com a escola e outros cuidadores, alinhando expectativas e combinando ajustes necessários (como flexibilização em provas, trabalhos, presença em determinadas atividades) sem expor detalhes desnecessários do que aconteceu.

Por fim, é essencial cuidar também de você. Pais e responsáveis abalados, cheios de culpa e exaustos têm mais dificuldade para sustentar uma rotina estável e oferecer apoio emocional. Buscar ajuda para si (terapia, grupos de apoio, orientações de serviços especializados) não é egoísmo, é parte do cuidado com a criança ou adolescente. A volta à rotina após um abuso não é um retorno ao “antes”, mas a construção de um “depois” com mais proteção, escuta e presença. Com tempo, apoio e respeito ao ritmo da vítima, é possível que ela volte a estudar, brincar, se relacionar e sonhar — sabendo que, agora, não está mais sozinha.