Ajudar seu filho a voltar à rotina após o trauma de um abuso não significa “fingir que nada aconteceu” e retomar a vida como antes. O que aconteceu mudou a história dele, e a rotina precisa ser reconstruída levando esse fato em consideração. O primeiro passo é garantir que ele esteja, de fato, em segurança: longe do agressor, protegido por adultos confiáveis e acompanhado, sempre que possível, por profissionais especializados. A sensação de segurança é a base para qualquer tentativa de retomar escola, lazer, sono, alimentação e convivência social.
A rotina deve ser retomada aos poucos, respeitando o ritmo da criança ou adolescente. Alguns dias ele pode querer ir à escola, em outros pode recusar com medo ou vergonha; oscilações são esperadas. Forçar uma volta “100% normal” pode aumentar o sofrimento. Em vez disso, combine pequenos passos: horários de sono e refeições mais regulares, retomada gradual das atividades que ele gostava antes, momentos de descanso e de brincadeira. O objetivo não é apressar a cura, mas oferecer previsibilidade, o que traz sensação de controle em meio ao caos interno.
Ouvir e acolher as emoções é tão importante quanto organizar horários. Tristeza, raiva, confusão, culpa, medo e até momentos de aparente “indiferença” fazem parte do processo. Frases como “o que você sente faz sentido”, “você pode falar sobre isso quando quiser, e também pode não querer falar agora”, “nada disso é culpa sua” ajudam a aliviar a pressão interna. Evite cobrar que ele “supere logo”, “esqueça isso” ou “volte a ser como era antes”; essas cobranças podem levá-lo a esconder o que sente só para não decepcionar você.
O apoio profissional faz muita diferença nessa fase. Psicólogos especializados em infância, adolescência e violência sexual podem ajudar a organizar memórias, emoções e medos, além de orientar a família sobre como agir em casa, na escola e em outros ambientes. Sempre que possível, mantenha uma comunicação aberta com a escola e outros cuidadores, alinhando expectativas e combinando ajustes necessários (como flexibilização em provas, trabalhos, presença em determinadas atividades) sem expor detalhes desnecessários do que aconteceu.
Por fim, é essencial cuidar também de você. Pais e responsáveis abalados, cheios de culpa e exaustos têm mais dificuldade para sustentar uma rotina estável e oferecer apoio emocional. Buscar ajuda para si (terapia, grupos de apoio, orientações de serviços especializados) não é egoísmo, é parte do cuidado com a criança ou adolescente. A volta à rotina após um abuso não é um retorno ao “antes”, mas a construção de um “depois” com mais proteção, escuta e presença. Com tempo, apoio e respeito ao ritmo da vítima, é possível que ela volte a estudar, brincar, se relacionar e sonhar — sabendo que, agora, não está mais sozinha.

