“Como eu não vi isso acontecer?”: Como lidar com a culpa após a descoberta

Quando um adulto descobre que uma criança ou adolescente sofreu abuso, é muito comum que a primeira pergunta seja: “Como eu não vi isso acontecer?”. A culpa vem como um choque, acompanhada de vergonha, tristeza e a sensação de ter falhado no dever de proteger. Esses sentimentos são intensos, mas é importante entender que agressores, em geral, agem de forma planejada e silenciosa, justamente para enganar, isolar e impedir que adultos percebam. O fato de você não ter visto não significa falta de amor ou desinteresse; significa, na maior parte das vezes, que houve uma estratégia de manipulação muito bem construída.

Lidar com a culpa começa por reconhecer que a responsabilidade pelo abuso é sempre, exclusivamente, de quem cometeu a violência — nunca da criança, nem de quem cuidava dela de boa-fé. Pensar sem parar no que “poderia ter feito diferente” é um mecanismo compreensível, mas que pode paralisar e atrapalhar o que realmente importa agora: proteger a vítima e garantir que ela receba apoio adequado. Em vez de se perguntar apenas “por que não vi?”, tente se perguntar “o que posso fazer a partir de agora para que ela se sinta segura e amparada?”.

Ao mesmo tempo, é saudável olhar para trás não para se punir, mas para aprender. Refletir sobre sinais que talvez tenham sido ignorados, comportamentos que pareceram “fase” ou “birra”, mudanças de humor ou de rotina pode ajudar a fortalecer o olhar daqui pra frente — tanto com essa criança ou adolescente, quanto com outras ao seu redor. Essa revisão, porém, precisa ser feita com cuidado, de preferência com apoio profissional (psicológico ou psicossocial), para não se transformar em um ataque cruel contra si mesmo, e sim em um processo de amadurecimento como cuidador.

Buscar ajuda para você também é uma forma de cuidar melhor da vítima. Conversar com psicólogos, grupos de apoio, serviços especializados em violência contra crianças e adolescentes pode ajudar a organizar emoções, reduzir a sensação de solidão e encontrar caminhos concretos para apoiar quem sofreu o abuso. Quando o adulto responsável consegue elaborar sua própria dor e culpa, fica mais disponível emocionalmente para ouvir, acolher, acompanhar procedimentos legais e terapêuticos, e sustentar a criança ou adolescente ao longo do tempo.

Por fim, transformar a culpa em compromisso é um passo fundamental. Isso significa usar o que aconteceu para fortalecer a rede de proteção: aprender mais sobre prevenção ao abuso, conversar abertamente com crianças e adolescentes sobre segredos perigosos, consentimento e corpo, observar com mais atenção mudanças de comportamento e não minimizar sinais de sofrimento. Você não pode voltar ao passado, mas pode ser, a partir de agora, uma presença firme, amorosa e atenta. Ao escolher agir, buscar ajuda e permanecer ao lado da vítima, você mostra, na prática, que ela não está sozinha — e que, apesar da dor, é possível reconstruir segurança e confiança.

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