Quando as cortinas se abrem e uma criança ou adolescente revela ter sofrido abuso, aquele momento é decisivo para a forma como ela vai lembrar e lidar com tudo que aconteceu. A reação de quem escuta pode confortar e fortalecer — ou, ao contrário, aumentar a culpa, a vergonha e o medo. Por isso, é essencial acolher com calma, acreditar naquilo que está sendo dito e entender que ninguém “inventa” esse tipo de relato por acaso. A prioridade absoluta é transmitir segurança e proteção, deixando claro que ela fez a coisa certa ao contar.
Entre as principais coisas a dizer, estão frases que validam o sofrimento e retiram qualquer culpa da vítima. Dizer “eu acredito em você”, “você fez muito bem em me contar”, “nada disso é culpa sua” e “agora vamos pensar juntos em como te proteger” ajuda a diminuir o medo de não ser levado a sério. Pergunte com delicadeza: “você quer me contar mais?” ou “você se sente à vontade para dizer o que aconteceu?”, sempre respeitando o ritmo da criança ou adolescente. O objetivo não é interrogar, e sim mostrar que ela pode falar o quanto quiser, no tempo dela.
Outra atitude importante é garantir, em palavras simples, que ela não está sozinha e que existem adultos e serviços preparados para ajudar. Frases como “eu vou procurar ajuda para você”, “vamos falar com pessoas que sabem como lidar com isso” e “você não precisa passar por isso sozinho(a)” reforçam a existência de uma rede de proteção. Também é válido explicar, com cuidado, que talvez seja necessário contar a história para outros adultos de confiança ou profissionais (como conselhos tutelares, psicólogos, autoridades), sempre reforçando que isso é para protegê-la e não para expô-la.
Por outro lado, há coisas que jamais devem ser ditas na hora da revelação. Nunca questione com frases como “tem certeza?”, “mas você não provocou?”, “por que não falou antes?” ou “isso é muito grave, tem noção do que está dizendo?”. Comentários assim passam a mensagem de desconfiança e culpa. Também é extremamente prejudicial minimizar o relato (“isso não foi tão grave assim”, “vai esquecer com o tempo”) ou colocar o peso nas consequências sociais (“se contarmos, vai ser um escândalo”, “vamos destruir a vida de fulano”). A criança ou adolescente precisa sentir que sua dor é mais importante do que a aparência ou o conforto dos adultos.
Por fim, evite prometer coisas que você não pode garantir, como “ninguém nunca mais vai saber disso” ou “não vamos contar para mais ninguém”, porque, na prática, a proteção da vítima muitas vezes exige acionar serviços e autoridades. Em vez disso, diga a verdade de forma cuidadosa: explique que algumas pessoas precisarão saber para poder ajudar, mas que você estará ao lado dela em todo o processo. O que mais importa é manter uma postura de escuta, respeito e proteção, mostrando com palavras e atitudes que ela foi corajosa ao revelar o abuso — e que, a partir dali, não precisará enfrentar tudo isso sozinha.

