Abuso sexual no esporte infantil pode ocorrer em relações de confiança e autoridade. Entender os riscos e fortalecer a proteção ajuda clubes, famílias e profissionais a agir antes que a violência aconteça.
O esporte ocupa um lugar importante na vida de muitas crianças e adolescentes. É onde fazem amizades, aprendem regras, desenvolvem habilidades e, muitas vezes, começam a construir sonhos para o futuro. Para algumas famílias, o clube, a escolinha, a academia ou a equipe esportiva também se torna uma extensão da escola e da própria casa.
Por isso, quando uma situação de abuso sexual acontece nesse ambiente, a violência pode ser ainda mais difícil de perceber e denunciar. O problema não está no esporte em si, mas nas relações de poder e confiança que podem ser utilizadas de maneira abusiva quando não existem mecanismos adequados de proteção.
Quando o ambiente de confiança se transforma em risco
Crianças e adolescentes dependem dos adultos para diversas atividades esportivas. O treinador orienta movimentos, corrige posições, acompanha treinos, define oportunidades e pode exercer influência sobre a participação em competições.
Essa relação de autoridade precisa ter limites claros.
O abuso sexual pode aparecer de maneira direta, mas também pode começar com comportamentos que parecem pequenos. Um profissional pode tentar estabelecer uma relação de proximidade excessiva com determinado atleta, buscar conversas privadas, enviar mensagens inadequadas ou criar situações em que a criança ou adolescente fique isolado.
Em algumas situações, o agressor pode utilizar a própria atividade esportiva como justificativa para ultrapassar limites. Um toque desnecessário pode ser apresentado como correção técnica. Um encontro individual pode ser tratado como uma oportunidade especial de treinamento. Uma conversa privada pode começar relacionada ao desempenho e gradualmente assumir um conteúdo inadequado.
Por isso, não basta confiar na reputação de uma pessoa. A proteção precisa estar baseada também em regras institucionais.
O poder e a dependência podem dificultar a denúncia
Um dos aspectos que merece atenção é a posição ocupada pelo adulto dentro da estrutura esportiva.
Um treinador pode decidir quem participa de uma competição, quem recebe determinada oportunidade ou quem é colocado como titular. Para um adolescente que sonha em competir profissionalmente, contrariar esse adulto pode parecer arriscado.
O medo de perder espaço, decepcionar a família, prejudicar a equipe ou ser considerado “problemático” pode fazer com que a vítima permaneça em silêncio.
Além disso, crianças e adolescentes podem não compreender imediatamente que determinado comportamento constitui violência. Quando existe manipulação, elogios, promessas de benefícios ou ameaças, a situação pode se tornar ainda mais confusa.
A responsabilidade, portanto, nunca deve ser colocada sobre a criança ou o adolescente. Cabe aos adultos e às instituições criar condições para que limites sejam respeitados e denúncias possam ser feitas com segurança.
Nem todo sinal aparece como uma denúncia direta
Nem sempre uma criança vai dizer claramente que sofreu abuso. Algumas podem demonstrar mudanças no comportamento antes de conseguirem falar sobre o que aconteceu.
É importante prestar atenção quando surgem alterações persistentes, como:
- resistência repentina em ir aos treinos;
- medo ou desconforto diante de determinada pessoa;
- mudanças importantes no humor;
- isolamento;
- queda inesperada no rendimento escolar ou esportivo;
- alterações no sono;
- tentativa de esconder mensagens ou contatos;
- ansiedade antes ou depois das atividades esportivas.
Nenhum desses sinais, isoladamente, comprova que ocorreu violência. Uma criança pode abandonar um esporte, por exemplo, por diversos motivos. O cuidado está em não ignorar mudanças significativas, principalmente quando elas aparecem acompanhadas de medo, sofrimento ou relatos de situações inadequadas.
A melhor resposta não é pressionar a criança com perguntas repetidas. É mostrar disponibilidade.
Frases simples como “se alguma coisa estiver acontecendo, você pode me contar” e “você não vai ter problemas por falar comigo” podem ajudar a construir um espaço de confiança.
A instituição também precisa assumir sua responsabilidade
A prevenção não pode depender apenas da atenção dos pais.
Clubes, escolas esportivas, federações e demais organizações que trabalham com crianças e adolescentes precisam estabelecer procedimentos claros de proteção. Isso envolve a seleção adequada de profissionais e voluntários, formação continuada, regras para comunicação com atletas, supervisão das atividades e canais acessíveis para comunicar situações preocupantes.
A legislação brasileira também avançou nessa direção. A Lei Geral do Esporte, modificada pela Lei nº 15.032/2024, passou a estabelecer medidas relacionadas à proteção de crianças e adolescentes contra abusos e violência sexual no contexto esportivo, incluindo qualificação de profissionais e mecanismos de recebimento de denúncias.
Um dos trechos da legislação determina a “qualificação dos profissionais envolvidos no treinamento esportivo de crianças e de adolescentes” para atuação preventiva e de proteção.
Isso ajuda a deixar claro que proteção não deve ser tratada como uma preocupação secundária. Ela precisa fazer parte da organização do próprio esporte.
Treinamento e supervisão não significam desconfiança
É possível criar mecanismos de proteção sem transformar o ambiente esportivo em um lugar de medo.
Ter portas abertas ou espaços adequadamente supervisionados, estabelecer regras para contatos individuais, orientar profissionais sobre limites físicos e digitais e manter comunicação transparente com as famílias são medidas que protegem todos.
Também é importante estabelecer critérios para mensagens entre profissionais e atletas. Quando a comunicação precisa acontecer por aplicativos, por exemplo, a instituição pode estabelecer regras sobre horários, grupos e participação dos responsáveis, de acordo com a idade e a realidade daquela modalidade.
A lógica deve ser simples: quanto maior a responsabilidade sobre crianças e adolescentes, maior também deve ser a transparência das relações.
E quando uma criança ou adolescente revela uma situação de abuso?
Esse momento exige muito cuidado.
Se uma criança ou adolescente contar que sofreu uma situação de violência, o adulto deve evitar julgamentos, ameaças ou perguntas insistentes para descobrir todos os detalhes. O primeiro passo é acolher e proteger.
A Lei nº 13.431/2017 estabelece um sistema de garantia de direitos para crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência e prevê procedimentos específicos, como a escuta especializada e o depoimento especial. A legislação também determina que os diferentes setores da rede de proteção atuem de maneira articulada.
A própria lei determina que a criança ou o adolescente seja ouvido por meio de procedimentos apropriados e que a escuta especializada fique limitada ao necessário para sua finalidade de proteção.
Na prática, isso significa que familiares, professores, treinadores e outros adultos não devem tentar conduzir uma investigação por conta própria. O caminho adequado é acolher, preservar a segurança e acionar os serviços responsáveis, evitando que a vítima precise repetir sua história inúmeras vezes.
O esporte pode ser um espaço de proteção
Falar sobre abuso sexual no esporte não significa colocar todos os treinadores, clubes ou profissionais sob suspeita. Significa reconhecer que crianças e adolescentes têm direito a praticar atividades esportivas em ambientes seguros.
Uma instituição responsável não espera que um caso aconteça para começar a pensar em proteção. Ela estabelece regras antes, capacita sua equipe, orienta as famílias e cria canais para que uma criança ou adolescente consiga pedir ajuda.
A prevenção também começa em casa. Pais e responsáveis podem conversar regularmente sobre respeito ao corpo, limites, situações que causam desconforto e a importância de procurar um adulto de confiança. Não é necessário transformar cada conversa em uma palestra. Pequenos diálogos, feitos de maneira natural, ajudam a criança a perceber que determinados comportamentos podem e devem ser comunicados.
Se houver suspeita ou revelação de violência
Quando existe suspeita ou relato de abuso, a prioridade é garantir a segurança da criança ou do adolescente. Não confronte a possível vítima com o suspeito, não pressione a criança para explicar repetidamente o que aconteceu e não tente resolver o caso apenas dentro do clube ou da família.
A situação deve ser encaminhada aos órgãos e serviços da rede de proteção competentes, seguindo os procedimentos previstos na legislação brasileira.
Em situações de sofrimento emocional intenso, o CVV atende gratuitamente pelo 188, 24 horas por dia, oferecendo apoio emocional. Para situações de violência contra crianças e adolescentes, porém, é necessário também buscar os canais institucionais de proteção e denúncia adequados ao caso.
Nenhuma medalha vale mais do que a proteção de uma criança
O esporte deve contribuir para o desenvolvimento, para a convivência e para a construção da autonomia. Nenhum resultado, campeonato, bolsa, convocação ou promessa de carreira pode justificar o silêncio diante de uma situação de violência.
Proteger crianças e adolescentes exige mais do que identificar possíveis agressores. É necessário construir instituições transparentes, profissionais preparados, famílias informadas e canais de comunicação nos quais uma denúncia seja recebida com seriedade.
Quando a segurança vem antes do resultado, o esporte cumpre melhor seu papel educativo. Medalhas podem representar conquistas, mas a dignidade e a integridade de uma criança não podem ser colocadas em segundo plano.
O JLN Cuidar.com busca contribuir para essa cultura de proteção por meio de conteúdos que valorizam informação, prevenção, direitos e cuidado. Conhecer os riscos é uma forma de fortalecer a responsabilidade coletiva e ajudar a construir espaços onde crianças e adolescentes possam crescer, praticar esportes e realizar seus sonhos com segurança.

