Denunciei, e agora? O que acontece depois?

Depois de fazer uma denúncia de abuso contra criança ou adolescente, o primeiro passo que geralmente acontece é o registro formal do caso. Seja por telefone, internet, conselho tutelar, delegacia ou outro canal oficial, a queixa é documentada com o máximo de informações possível: quem é a vítima, quem é o suspeito, o que aconteceu, quando, onde e quem mais pode saber dos fatos. Esse registro é essencial para que o caso não se perca e possa ser acompanhado por diferentes órgãos da rede de proteção.

Em seguida, costumam entrar em ação dois eixos principais: a proteção da vítima e a investigação do que foi denunciado. O conselho tutelar, os serviços de assistência social, escolas e unidades de saúde podem ser acionados para avaliar a situação de risco, ouvir a criança ou adolescente em ambiente adequado, orientar a família e tomar medidas urgentes (como afastar o agressor da convivência, quando necessário). Paralelamente, a polícia e o Ministério Público podem iniciar procedimentos para apurar o crime, colhendo depoimentos, perícias e outras provas.

É importante saber que a vítima não deve ser obrigada a repetir sua história inúmeras vezes para pessoas diferentes. Em muitos lugares, busca-se fazer a chamada “escuta especializada” ou “depoimento especial”, em ambiente preparado e com profissionais capacitados, justamente para evitar nova violência emocional. A partir daí, os relatos são encaminhados às instâncias responsáveis (delegacia, justiça, serviços de saúde mental), reduzindo a necessidade de reviver repetidamente o trauma.

Outro ponto central é o acompanhamento psicológico e social da criança ou adolescente e, muitas vezes, da família. Após a denúncia, podem ser oferecidos atendimentos com psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais para apoiar a vítima na elaboração do que aconteceu, fortalecer vínculos de confiança e orientar os responsáveis sobre como agir. Esse suporte não é um “extra”: faz parte da proteção, porque ajuda a reduzir danos emocionais e a construir um ambiente mais seguro.

Por fim, é fundamental entender que o processo pode ser demorado e, às vezes, frustrante, com idas e vindas, audiências, pareceres e decisões que nem sempre são rápidas. Mesmo assim, a denúncia nunca é em vão: ela tira o caso da invisibilidade, pode interromper o ciclo de violência, impede que o agressor aja com total impunidade e abre chances reais de proteção à vítima e a outras crianças. O papel de quem denuncia é, acima de tudo, persistir na proteção, acompanhar o caso sempre que possível e continuar sendo um ponto de apoio seguro para a criança ou adolescente ao longo de todo esse caminho.

Você consegue ficar 15 minutos sem celular para ouvir seu filho hoje?

Vivemos em um tempo em que estar presente fisicamente não significa, necessariamente, estar presente de verdade. Muitas vezes, o corpo está em casa, mas a mente está na tela: nas notificações, nas mensagens, no trabalho que não termina. Por isso, a pergunta “Você consegue ficar 15 minutos sem celular para ouvir seu filho hoje?” é tão poderosa. Em poucos minutos de atenção plena, uma criança pode se sentir mais vista e amada do que em horas ao lado de um adulto distraído.

Para uma criança ou adolescente, a atenção dos pais funciona como um espelho: quando você para para ouvir, a mensagem é “você é importante, o que você sente e pensa tem valor”. Quando está sempre apressado, mexendo no celular ou dando respostas automáticas, a mensagem invertida aparece: “o que está na tela é mais interessante do que você”. Com o tempo, isso afeta a autoestima, a forma como eles se enxergam e até a disposição de compartilhar o que realmente acontece em suas vidas.

Quinze minutos de escuta verdadeira podem abrir portas que você nem imagina. É nesse espaço que surgem comentários espontâneos sobre a escola, os medos, as amizades, as dúvidas e até sinais de sofrimento que, de longe, passariam despercebidos. Quando a criança sente que não será interrompida pela vibração do celular ou por um “depois a gente fala disso”, ela se arrisca mais a falar do que é importante. E é justamente aí que você se torna uma referência de confiança.

Também é nesses minutos sem tela que se reforça a prevenção de situações de risco. Um filho que tem o hábito de conversar com os pais sobre o dia, os sentimentos e os incômodos tende a procurar ajuda mais rápido quando algo grave acontece — seja bullying, um abuso, um contato estranho na internet ou qualquer outra situação. Mas isso só acontece se ele tiver certeza, na prática, de que será ouvido, e não apenas “tolerado” entre uma olhada e outra no celular.

Desafiar-se a ficar 15 minutos por dia sem nenhuma tela, apenas ouvindo e interagindo com seu filho, é um gesto simples, mas profundamente transformador. Não precisa de discursos elaborados nem de grandes programas: pode ser na mesa, no sofá, antes de dormir, durante uma caminhada. O mais importante é a qualidade, não o cenário. Ao reservar esse tempo, você está dizendo, sem palavras: “hoje, você é a minha prioridade”. E essa sensação de prioridade é um dos maiores presentes que um pai ou mãe pode oferecer.

Eu acredito em você”: Por que essa é a frase mais poderosa contra o abuso?

Quando uma criança ou adolescente revela ter sofrido abuso, ela geralmente está tomada por medo, vergonha e dúvida sobre se será ou não levada a sério. Nesse cenário, ouvir “eu acredito em você” pode mudar tudo. Essa frase rompe um dos maiores medos de quem sofreu violência: o medo de ser acusado de mentira, exagero ou culpa. Em poucas palavras, ela diz: “o que você sente importa, sua dor é real e você não está sozinho”.

“Eu acredito em você” também combate diretamente uma das principais armas do agressor: a manipulação. Muitos abusadores ameaçam, dizem que “ninguém vai acreditar”, que “vai dar problema para todo mundo” ou que “foi culpa da própria vítima”. Quando o adulto de referência olha nos olhos e afirma que acredita, destrói essa narrativa de isolamento e devolve à criança ou adolescente a sensação de ter um aliado. É como abrir uma porta para que ela possa, finalmente, sair do silêncio.

Além disso, acreditar é o ponto de partida para qualquer proteção efetiva. Sem essa validação inicial, dificilmente a vítima terá forças para repetir sua história para profissionais, autoridades ou serviços de proteção. Ao dizer “eu acredito em você”, o adulto cria um chão emocional seguro, onde é possível contar com mais detalhes, chorar, se confundir, lembrar aos poucos — tudo isso sem o peso de precisar “provar” que está dizendo a verdade o tempo todo.

Essa frase também tem um impacto profundo na maneira como a vítima vai enxergar a si mesma no futuro. Crianças e adolescentes que são desacreditados tendem a internalizar culpa e desconfiança de seus próprios sentimentos, o que pode gerar marcas duradouras na autoestima e na saúde mental. Já quando são ouvidos e acreditados, constroem a ideia de que suas percepções têm valor e de que buscar ajuda é algo correto e possível, não uma fraqueza.

Por fim, “eu acredito em você” é poderosa porque não depende de respostas prontas, de soluções imediatas ou de saber exatamente o que fazer em seguida. Mesmo sem ter todos os passos definidos, qualquer adulto pode começar por aí: acreditar, acolher, ouvir. A partir desse ponto, é possível buscar ajuda profissional, acionar os canais de denúncia e construir uma rede de proteção. Mas tudo isso só se torna viável quando a vítima entende, pelo seu olhar e pelas suas palavras, que a verdade dela foi reconhecida — e que, a partir dali, ela não precisa mais carregar esse peso sozinha.

Se seu filho contar um erro grave, você acolhe ou castiga?

Quando um filho conta um erro grave, aquele momento é um divisor de águas na relação de confiança entre vocês. A forma como você reage pode fazer com que ele aprenda que a casa é um lugar seguro para pedir ajuda — ou um espaço em que verdade vira sinônimo de punição e vergonha. Não é simples segurar a própria raiva, a decepção ou o medo das consequências, mas é justamente aí que entra o papel do adulto: escolher responder com responsabilidade, e não apenas reagir no impulso.

Acolher não significa passar a mão na cabeça nem fingir que nada aconteceu. Significa, antes de tudo, reconhecer a coragem de ter contado. Frases como “obrigado por me contar”, “imagino que tenha sido difícil falar sobre isso”, “você fez a coisa certa em vir até mim” ajudam a diminuir o pavor e reforçam que, na sua casa, honestidade vale mais do que aparência. Escutar até o fim, sem interromper a cada frase com broncas ou julgamentos, também é uma forma poderosa de acolhimento.

Depois de ouvir, vem a parte de lidar com o erro em si. A diferença entre acolher e apenas castigar está em como você conduz essa etapa. Em vez de atacar a identidade (“você é irresponsável”, “você é um fracasso”), foque no comportamento e nas consequências: “o que exatamente aconteceu?”, “o que você pensou na hora?”, “quem foi afetado?”, “como podemos reparar isso agora?”. Consequências podem existir — restrições, reparações, mudanças de regras —, mas precisam ser proporcionais, explicadas e conectadas ao aprendizado, não à vingança.

Quando a reação é só castigo explosivo, grito e humilhação, a mensagem que fica é: “contar a verdade é perigoso”. O filho aprende que é mais “seguro” esconder, mentir ou tentar resolver sozinho, mesmo quando não tem recursos para isso. A confiança se rompe silenciosamente: por fora, pode parecer que ele “aprendeu a lição”, mas por dentro, decide que nunca mais será totalmente sincero. Com o tempo, os pais passam a descobrir os problemas tarde demais — justamente porque ensinaram, sem perceber, que sinceridade dói mais que o erro.

Escolher acolher, portanto, é uma decisão de longo prazo. É segurar o ímpeto de descarregar a raiva, afirmar com clareza que você não aprova o que foi feito, mas que continua ao lado dele para enfrentar as consequências juntos. É transformar o erro em oportunidade de amadurecimento, e não em muro entre vocês. Quando a criança ou o adolescente entende que pode procurá-lo mesmo depois de um erro grave, você deixa de ser apenas alguém que pune e passa a ser, de fato, um adulto de referência — aquele a quem ele recorre quando mais precisa.

Você é firme ou autoritário? Como a rigidez excessiva afasta seu filho de você.

Ser um pai ou mãe “firme” é muito diferente de ser autoritário, embora, na prática, essa linha às vezes pareça confusa. A firmeza envolve colocar limites claros, dizer “não” quando necessário e orientar o comportamento dos filhos com responsabilidade e afeto. Já o autoritarismo se apoia no medo, na obediência cega e em frases como “é assim porque eu mandei”. Enquanto a firmeza educa, o excesso de rigidez pode criar distância emocional e dificuldade de diálogo.

Quando a rigidez é excessiva, a mensagem que a criança ou adolescente recebe não é “meus pais se importam comigo”, mas sim “eu preciso tomar cuidado para não apanhar, não levar bronca, não ser humilhado”. Em vez de pensar sobre o que fez, ele passa a pensar apenas em como evitar a reação dos adultos. Isso pode gerar mentiras, segredos e uma sensação constante de tensão em casa. A relação deixa de ser um espaço de aprendizado e passa a ser um terreno de medo e vigilância.

Ser firme sem ser autoritário significa focar no comportamento, não na identidade da criança. Em vez de dizer “você é irresponsável”, o adulto pode dizer “o que você fez foi irresponsável, e precisamos conversar sobre isso”. A diferença parece pequena, mas é enorme para quem escuta: uma coisa rotula a pessoa, a outra aponta o erro e abre espaço para mudança. Firmeza também implica em consequências coerentes e explicadas, e não em punições “no calor da raiva” ou muito maiores do que o erro cometido.

A rigidez excessiva também afasta o filho porque diminui a chance de ele procurar você quando algo sério acontece. Se ele aprendeu que erros menores já geram explosões, gritos ou castigos desproporcionais, por que confiaria em você para compartilhar medos, problemas na escola, conflitos com amigos ou até situações de risco? A longo prazo, isso fragiliza o vínculo: os pais pensam que “controlam”, mas, por dentro, muitas vezes perderam o lugar de referência emocional.

Rever a própria postura não significa abrir mão de limites ou “virar amigo permissivo”, e sim buscar um equilíbrio saudável. É possível ser claro, consistente, dizer “não” e aplicar consequências, ao mesmo tempo em que se escuta, explica e respeita. Perguntar-se com honestidade “meu filho tem medo de mim ou confia em mim?” é um bom começo. Quando a casa se torna um lugar em que é possível errar, conversar e reparar, a autoridade deixa de se basear no medo e passa a se sustentar no respeito — e é aí que o vínculo se fortalece de verdade.

“Como eu não vi isso acontecer?”: Como lidar com a culpa após a descoberta

Quando um adulto descobre que uma criança ou adolescente sofreu abuso, é muito comum que a primeira pergunta seja: “Como eu não vi isso acontecer?”. A culpa vem como um choque, acompanhada de vergonha, tristeza e a sensação de ter falhado no dever de proteger. Esses sentimentos são intensos, mas é importante entender que agressores, em geral, agem de forma planejada e silenciosa, justamente para enganar, isolar e impedir que adultos percebam. O fato de você não ter visto não significa falta de amor ou desinteresse; significa, na maior parte das vezes, que houve uma estratégia de manipulação muito bem construída.

Lidar com a culpa começa por reconhecer que a responsabilidade pelo abuso é sempre, exclusivamente, de quem cometeu a violência — nunca da criança, nem de quem cuidava dela de boa-fé. Pensar sem parar no que “poderia ter feito diferente” é um mecanismo compreensível, mas que pode paralisar e atrapalhar o que realmente importa agora: proteger a vítima e garantir que ela receba apoio adequado. Em vez de se perguntar apenas “por que não vi?”, tente se perguntar “o que posso fazer a partir de agora para que ela se sinta segura e amparada?”.

Ao mesmo tempo, é saudável olhar para trás não para se punir, mas para aprender. Refletir sobre sinais que talvez tenham sido ignorados, comportamentos que pareceram “fase” ou “birra”, mudanças de humor ou de rotina pode ajudar a fortalecer o olhar daqui pra frente — tanto com essa criança ou adolescente, quanto com outras ao seu redor. Essa revisão, porém, precisa ser feita com cuidado, de preferência com apoio profissional (psicológico ou psicossocial), para não se transformar em um ataque cruel contra si mesmo, e sim em um processo de amadurecimento como cuidador.

Buscar ajuda para você também é uma forma de cuidar melhor da vítima. Conversar com psicólogos, grupos de apoio, serviços especializados em violência contra crianças e adolescentes pode ajudar a organizar emoções, reduzir a sensação de solidão e encontrar caminhos concretos para apoiar quem sofreu o abuso. Quando o adulto responsável consegue elaborar sua própria dor e culpa, fica mais disponível emocionalmente para ouvir, acolher, acompanhar procedimentos legais e terapêuticos, e sustentar a criança ou adolescente ao longo do tempo.

Por fim, transformar a culpa em compromisso é um passo fundamental. Isso significa usar o que aconteceu para fortalecer a rede de proteção: aprender mais sobre prevenção ao abuso, conversar abertamente com crianças e adolescentes sobre segredos perigosos, consentimento e corpo, observar com mais atenção mudanças de comportamento e não minimizar sinais de sofrimento. Você não pode voltar ao passado, mas pode ser, a partir de agora, uma presença firme, amorosa e atenta. Ao escolher agir, buscar ajuda e permanecer ao lado da vítima, você mostra, na prática, que ela não está sozinha — e que, apesar da dor, é possível reconstruir segurança e confiança.

Seu filho esconde as coisas porque morre de medo da sua reação?

Quando um filho começa a esconder coisas porque morre de medo da reação dos pais, isso é um sinal importante sobre como ele enxerga a segurança emocional dentro de casa. Mentiras, omissões e segredos, muitas vezes, não nascem de maldade, mas de pavor: pavor de gritos, humilhações, castigos exagerados ou de “decepcionar” quem ele ama. Em vez de olhar apenas para o que foi escondido, vale a pena se perguntar: “O que meu comportamento está ensinando para ele sobre errar e contar a verdade?”.

Crianças e adolescentes que têm medo da reação dos pais costumam antecipar o que vai acontecer: “Se eu contar, vou apanhar”, “vão gritar comigo”, “vão me chamar de irresponsável”, “vão me comparar com outros”. Para evitar essa dor, escolhem o silêncio ou a mentira. O problema é que isso cria um ciclo perigoso: quanto mais o adulto reage com explosão, mais o filho aprende a esconder. Com o tempo, a relação deixa de ser de confiança e passa a ser de vigilância, controle e fuga.

Quebrar esse ciclo exige rever a forma como você reage aos erros. Isso não significa “passar a mão na cabeça” ou fingir que nada aconteceu, e sim trocar o ataque pelo diálogo firme, porém respeitoso. Em vez de começar com acusações (“você é irresponsável!”, “você sempre faz tudo errado!”), tente perguntas que ajudem a entender o que houve: “O que aconteceu?”, “o que você pensou na hora?”, “como podemos resolver isso juntos?”. Quando o foco sai de culpar a pessoa e vai para resolver o problema, o medo diminui e a honestidade ganha espaço.

Outra mudança poderosa é reconhecer, com humildade, quando você exagera. Pedir desculpas ao filho após uma explosão não tira sua autoridade; ao contrário, mostra maturidade e ensina responsabilidade emocional. Frases como “eu me excedi”, “não gostei do que você fez, mas também não gostei de como eu falei”, “vou tentar reagir de outro jeito da próxima vez” abrem uma nova porta na relação. Aos poucos, a mensagem que fica é: “Eu posso errar e ainda assim ser ouvido, sem ser destruído”.

Construir um ambiente em que seu filho não tenha medo da sua reação é um processo, não um passe de mágica. Envolve mais escuta, menos rótulos, consequências proporcionais (e explicadas) em vez de punições motivadas só pela raiva, e conversas frequentes sobre sinceridade e confiança. Quando a casa se torna um lugar onde é possível contar a verdade — inclusive sobre coisas difíceis —, o filho não precisa mais se esconder. E você passa de “pessoa que assusta” para “adulto de referência”, aquele a quem ele recorre justamente quando algo dá errado.

Como ensinar seu filho a jamais guardar segredos perigosos?

Ensinar seu filho a jamais guardar segredos perigosos começa por explicar, desde cedo, a diferença entre “segredo legal” e “segredo perigoso”. Segredos legais são aqueles que dão uma sensação boa e não fazem mal a ninguém, como preparar uma surpresa de aniversário. Já os segredos perigosos causam medo, vergonha, tristeza, dor ou envolvem algo que um adulto disse que “ninguém pode saber”. Quando a criança entende essa diferença, ela se sente mais segura para identificar situações em que precisa pedir ajuda.

Outra atitude importante é repetir, muitas vezes e de formas diferentes, que ela nunca será culpada por contar um segredo perigoso. Crianças costumam ter medo de “dar problema” ou “deixar alguém bravo”, então é essencial reforçar frases como: “na nossa família, segredos que machucam não existem”, “se alguém fizer você se sentir mal e mandar guardar segredo, pode me contar na mesma hora”. Essa mensagem precisa ser constante, não só depois de ver uma notícia, mas no dia a dia, em conversas simples.

Usar exemplos concretos e adequados à idade ajuda muito. Você pode dizer: “Se alguém tocar no seu corpo de um jeito que você não gosta, tirar foto sem você querer, falar coisas que te deixam com vergonha, ou mandar você fazer algo escondido, isso nunca é um segredo seu, é um problema do adulto — e eu quero saber”. Livros infantis, desenhos e histórias podem ser aliados para mostrar que contar a um adulto de confiança é sempre o caminho certo quando algo parece estranho ou assustador.

Também é fundamental construir um ambiente em que a criança sinta que pode falar de qualquer coisa, sem medo de bronca imediata. Se, sempre que ela erra, é recebida com gritos ou punições duras, é menos provável que procure você para revelar algo sério. Procure ouvir primeiro, acolher, agradecer por ela ter contado e, depois, com calma, orientar. Quando a criança aprende que pode falar sobre assuntos difíceis sem ser humilhada, aumenta muito a chance de que ela revele segredos perigosos.

Por fim, ajude seu filho a identificar uma “rede de adultos de confiança”: além dos pais ou responsáveis, pode haver um parente próximo, professor, orientador ou outro adulto que você reconhece como seguro. Explique que, se por algum motivo não conseguir falar com você, pode falar com essas pessoas. Reforce sempre: segredos que machucam não se guardam, se contam. Esse ensinamento, repetido com afeto e clareza, é uma das proteções mais poderosas que você pode oferecer contra situações de abuso ou violência.

A criança ou adolescente revelou ter sofrido abuso: O que dizer (e o que JAMAIS dizer) na hora da revelação

Quando as cortinas se abrem e uma criança ou adolescente revela ter sofrido abuso, aquele momento é decisivo para a forma como ela vai lembrar e lidar com tudo que aconteceu. A reação de quem escuta pode confortar e fortalecer — ou, ao contrário, aumentar a culpa, a vergonha e o medo. Por isso, é essencial acolher com calma, acreditar naquilo que está sendo dito e entender que ninguém “inventa” esse tipo de relato por acaso. A prioridade absoluta é transmitir segurança e proteção, deixando claro que ela fez a coisa certa ao contar.

Entre as principais coisas a dizer, estão frases que validam o sofrimento e retiram qualquer culpa da vítima. Dizer “eu acredito em você”, “você fez muito bem em me contar”, “nada disso é culpa sua” e “agora vamos pensar juntos em como te proteger” ajuda a diminuir o medo de não ser levado a sério. Pergunte com delicadeza: “você quer me contar mais?” ou “você se sente à vontade para dizer o que aconteceu?”, sempre respeitando o ritmo da criança ou adolescente. O objetivo não é interrogar, e sim mostrar que ela pode falar o quanto quiser, no tempo dela.

Outra atitude importante é garantir, em palavras simples, que ela não está sozinha e que existem adultos e serviços preparados para ajudar. Frases como “eu vou procurar ajuda para você”, “vamos falar com pessoas que sabem como lidar com isso” e “você não precisa passar por isso sozinho(a)” reforçam a existência de uma rede de proteção. Também é válido explicar, com cuidado, que talvez seja necessário contar a história para outros adultos de confiança ou profissionais (como conselhos tutelares, psicólogos, autoridades), sempre reforçando que isso é para protegê-la e não para expô-la.

Por outro lado, há coisas que jamais devem ser ditas na hora da revelação. Nunca questione com frases como “tem certeza?”, “mas você não provocou?”, “por que não falou antes?” ou “isso é muito grave, tem noção do que está dizendo?”. Comentários assim passam a mensagem de desconfiança e culpa. Também é extremamente prejudicial minimizar o relato (“isso não foi tão grave assim”, “vai esquecer com o tempo”) ou colocar o peso nas consequências sociais (“se contarmos, vai ser um escândalo”, “vamos destruir a vida de fulano”). A criança ou adolescente precisa sentir que sua dor é mais importante do que a aparência ou o conforto dos adultos.

Por fim, evite prometer coisas que você não pode garantir, como “ninguém nunca mais vai saber disso” ou “não vamos contar para mais ninguém”, porque, na prática, a proteção da vítima muitas vezes exige acionar serviços e autoridades. Em vez disso, diga a verdade de forma cuidadosa: explique que algumas pessoas precisarão saber para poder ajudar, mas que você estará ao lado dela em todo o processo. O que mais importa é manter uma postura de escuta, respeito e proteção, mostrando com palavras e atitudes que ela foi corajosa ao revelar o abuso — e que, a partir dali, não precisará enfrentar tudo isso sozinha.

Descobriu um Abuso online? Veja Como Agir com Segurança e Eficácia

Descobrir um abuso online envolvendo criança ou adolescente é algo que choca e revolta, mas a forma como você reage pode fazer diferença direta na proteção dessa vítima. Na internet, situações de abuso vão desde aliciamento em conversas e exposição de imagens íntimas até compartilhamento de conteúdo sexual envolvendo menores, cyberbullying extremo e ameaças. Por mais difícil que seja lidar com isso, é fundamental manter a calma, não se omitir e agir de forma estruturada, priorizando sempre a segurança da criança ou adolescente.

O primeiro passo é reconhecer que, em qualquer situação de abuso envolvendo menores, estamos falando de grave violação de direitos e, muitas vezes, de crime. Não minimize o que viu: convites de teor sexual, chantagens com fotos, trocas de nudez, grupos que sexualizam crianças, perfis falsos que se passam por adolescentes para aliciar, entre outros. Se a vítima for alguém próximo (filho, aluno, parente), acolha sem julgamentos, deixando claro que a culpa nunca é da criança ou do adolescente, independentemente do que tenha acontecido ou do que ele tenha enviado.

Em seguida, é essencial preservar provas antes de qualquer tentativa de apagar ou denunciar o conteúdo. Faça capturas de tela (prints) das conversas, perfis, grupos, publicações, e-mails ou mensagens, anotando datas, horários, links (URLs) e nomes de usuários. Não compartilhe esse material com outras pessoas, pois isso pode caracterizar novo compartilhamento de conteúdo ilegal; guarde apenas para fins de denúncia. Evite confrontar diretamente o agressor, para não colocar a vítima em mais risco nem alertar o autor, o que pode levá-lo a apagar rastros importantes para a investigação.

Com as evidências reunidas, utilize os canais oficiais de denúncia. Nas redes sociais, use as funções de “Denunciar” ou “Reportar abuso”, especialmente quando houver exploração sexual, assédio ou exposição de menores. No âmbito legal, é recomendável acionar imediatamente as autoridades competentes — como delegacias especializadas em crimes contra crianças, crimes cibernéticos ou o órgão equivalente na sua região — e registrar boletim de ocorrência. Em muitos países, também existem canais nacionais específicos para denunciar violência contra crianças e adolescentes, que podem ser acionados por telefone ou pela internet, de forma anônima se necessário.

Cuide da proteção contínua da criança ou adolescente. Oriente sobre privacidade online, revendo configurações de segurança em redes sociais, alterando senhas, ativando autenticação em dois fatores e, se preciso, limitando o acesso temporário a determinados aplicativos ou dispositivos. Busque apoio psicológico especializado, especialmente se houver sinais de medo, vergonha, ansiedade ou mudança brusca de comportamento. Denunciar e acompanhar o caso é um ato de responsabilidade e cuidado: ao agir com segurança, preservar provas e acionar os canais corretos, você contribui para interromper o abuso, responsabilizar os envolvidos e fortalecer a rede de proteção de crianças e adolescentes.