No Agosto Lilás, mês de combate à violência contra a mulher, é preciso olhar também para a saúde mental da mulher periférica. Entenda as barreiras de acesso ao cuidado e onde buscar apoio.
Você já reparou como é difícil cuidar do próprio emocional quando a prioridade do dia é só conseguir dar conta de tudo? Essa é a realidade de muitas mulheres que moram em territórios periféricos, onde o dinheiro é curto e a rotina é pesada. Nesses contextos, a dor emocional costuma ficar em último lugar na lista de prioridades, não por falta de importância, mas por falta de espaço, tempo e, muitas vezes, de acesso.
No Agosto Lilás, mês em que o Brasil se mobiliza pelo combate à violência contra a mulher em homenagem à Lei Maria da Penha, este é um bom momento para falar sobre algo que raramente aparece nas campanhas: o que acontece com a saúde mental de quem enfrenta, ao mesmo tempo, a sobrecarga do cuidado, a precariedade econômica e, em muitos casos, o próprio ciclo da violência doméstica.
O que impede o acesso ao cuidado emocional na periferia
Cuidar das emoções nunca é uma tarefa simples, mas nas comunidades periféricas ela esbarra em obstáculos concretos que vão além da vontade individual. Entre os principais, estão:
- O preconceito ainda existente em torno da terapia, muitas vezes vista como “coisa de gente rica” ou como sinal de fraqueza
- A escassez de serviços públicos de saúde mental próximos de casa, o que obriga longos deslocamentos
- As filas extensas nos postos de saúde e a demora no encaminhamento para atendimento psicológico
- O custo inacessível de consultas particulares, quando a rede pública não dá conta da demanda
- As duplas e triplas jornadas de trabalho doméstico, remunerado e de cuidado com os filhos, que consomem qualquer energia restante no fim do dia
Esse acúmulo de barreiras cria um ciclo de esgotamento do qual é difícil sair sozinha. O dia a dia de quem cuida da casa, dos filhos e ainda precisa trabalhar fora deixa pouquíssimo espaço para olhar para dentro. Somada à falta de espaços públicos de lazer e acolhimento nos territórios periféricos, essa rotina faz com que os primeiros sinais de ansiedade ou tristeza profunda sejam empurrados para depois, até se tornarem um esgotamento que já não dá mais para adiar.
Como as marcas da violência afetam o dia a dia
A violência contra a mulher não deixa marcas apenas no corpo. Viver em um ambiente com brigas, ofensas, controle financeiro ou ameaças constantes gera um estado permanente de alerta, o que se traduz em crises de ansiedade, tristeza profunda e medo persistente.
Quando a mulher não encontra um lugar seguro para conversar ou pedir socorro, a tendência natural é o isolamento. Esse sofrimento contínuo vai corroendo, aos poucos, a autoestima, a confiança e a vontade de encarar a vida de frente. E esse peso não é só uma percepção subjetiva: ele aparece nos dados.
Um estudo publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, que avaliou 848 mulheres em Campinas, encontrou uma prevalência de 18,7% de Transtorno Mental Comum (TMC), quadro que reúne sintomas como insônia, irritabilidade, cansaço excessivo e sintomas somáticos. A pesquisa identificou que mulheres mais velhas, com baixa escolaridade, donas de casa, separadas ou viúvas e que relataram algum tipo de violência formam os grupos mais vulneráveis a esse tipo de sofrimento psíquico (Senicato, Azevedo & Barros, 2018).
Esse dado reforça uma realidade que muitas psicólogas e assistentes sociais observam na prática clínica e territorial: quanto maior a sobreposição de vulnerabilidades, sociais, econômicas e de gênero, maior o risco de adoecimento emocional. Por isso, tratar essas questões o quanto antes faz diferença real na qualidade de vida de quem enfrenta essa realidade todos os dias.
Por que é tão difícil pedir ajuda
O medo e a dependência financeira muitas vezes prendem a mulher em situações dolorosas, mesmo quando ela já reconhece o sofrimento que vive. Alguns fatores tornam esse passo especialmente difícil:
- Naturalização do sofrimento, quando comportamentos abusivos do parceiro passam a ser vistos como “normais” dentro da relação
- Medo de represálias, tanto físicas quanto financeiras, ao tentar romper o silêncio
- Vergonha ou culpa, sentimentos comuns entre mulheres que acreditam ser responsáveis pelo próprio sofrimento
- Falta de informação sobre onde e como buscar apoio gratuito
Aprender a reconhecer que certos comportamentos do parceiro não são normais é, geralmente, o primeiro e o mais difícil passo para conseguir pedir ajuda e planejar um futuro diferente.
O abraço da comunidade como ponto de partida
Quando o apoio institucional demora a chegar, a rede de apoio do próprio território faz toda a diferença. Grupos de vizinhas, rodas de conversa em associações comunitárias e projetos sociais funcionam como um porto seguro para muitas mulheres.
Nesses encontros, é comum que as participantes percebam, pela primeira vez, que não estão sozinhas naquilo que sentem. A troca de afeto e a escuta sem julgamentos ajudam a aliviar a dor imediata e, muitas vezes, abrem o caminho para que a mulher busque, em seguida, apoio profissional especializado.
O papel das políticas públicas de assistência
Os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) são portas de entrada importantes para esse cuidado, oferecendo acompanhamento social, orientação e encaminhamento para a rede de saúde mental do território. Conhecer esses serviços e saber que eles são gratuitos é, muitas vezes, o que falta para que uma mulher dê o primeiro passo.
Onde buscar ajuda
Se você está vivendo ou testemunhando qualquer forma de sofrimento emocional relacionado à violência doméstica, não precisa enfrentar isso sozinha. Os canais abaixo são gratuitos e funcionam em todo o Brasil:
- 190 – Polícia Militar, para situações de risco imediato
- 180 – Central de Atendimento à Mulher, para denúncias e orientação (ligação gratuita, 24 horas)
- 188 – CVV (Centro de Valorização da Vida), para apoio emocional e escuta em momentos de sofrimento psíquico
- CRAS e CREAS – para acompanhamento social e encaminhamentos na sua região
- UBS e CAPS – para acolhimento em saúde mental na rede pública
O fortalecimento que transforma vidas
Aproveitar o Agosto Lilás é essencial para espalhar informação de forma simples e direta, sem julgamentos. Quando a mulher aprende a identificar os sinais de um relacionamento tóxico e descobre onde buscar socorro, ela ganha força para reescrever sua própria história. Cuidar das emoções é o primeiro passo para resgatar a autonomia, recomeçar com dignidade e construir um futuro mais leve para si e para quem depende dela.
Você não está sozinha nessa caminhada
No JLN Cuidar.com, entendemos que cuidar da saúde mental é também uma questão de justiça social: garantir que toda mulher, independentemente de onde mora ou de quanto ganha, tenha acesso a informação de qualidade e a caminhos reais de acolhimento. Nosso compromisso é unir o olhar da Psicologia ao do trabalho social para produzir conteúdo que realmente faça sentido na vida de quem mais precisa. Se este texto tocou você de alguma forma, continue explorando nosso blog: há mais conteúdos pensados para fortalecer sua saúde emocional e sua rede de apoio.

